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Cultura

Festival de Inverno traz Cristiane Sobral para debate sobre "Quarto de Despejo" e coloca em foco a mulher preta, periférica e intelectual

Marco da literatura, obra de Carolina de Jesus, debatida neste sábado (25/7), despertou diálogos sobre fome, justiça social, sabedoria, felicidade, indignação e literatura

Publicado em Sáb, 25 jul 2026 20:34:58 +0000 Atualizado em Sáb, 25 jul 2026 20:50:55 +0000
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Publicado em 1960, "Quarto de Despejo - Diário de uma favelada", de Maria Carolina de Jesus, levou aos quatro cantos do Brasil e a mais de 40 países sua história e escrita enquanto mulher preta, periférica, catadora de material reciclável e intelectual. Um marco na literatura, a obra foi tema de debate realizado pela escritora, professora, atriz e dramaturga Cristiane Sobral, neste sábado (25/7), como parte da programação do Festival de Inverno do Sesc, e trouxe à tona temas como fome, justiça social, sabedoria, felicidade, indignação e literatura.
 

Autora de 14 obras literárias, entre elas "Não vou mais lavar os pratos", Cristiane Sobral explica que em "Quarto de Despejo", Carolina de Jesus, "quando fala da favela, não está fazendo apologia à pobreza, não está dizendo que morar na favela e passar fome é uma coisa maravilhosa". "Carolina queria comer bem, criar seus filhos, levar seus filhos para a escola. Nesse sentido, o que a humanidade de uma pessoa pobre e uma pessoa rica tem de diferente? Carolina apresenta a humanidade. Não existe ninguém no mundo que não queira o bem-viver", afirma Sobral.

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Ao conduzir o debate, acompanhado por dezenas de pessoas de todo o Distrito Federal, Cristiane Sobral disse que o quarto de despejo retratado por Carolina de Jesus há ais de 60 anos permanece estruturado nos dias de hoje. "Quarto de despejo é o lugar que ninguém quer. É o que está reservado às pessoas em vulnerabilidade social. O Brasil escolhe deixar grande parte da população desassistida, e isso é uma estratégia. Se a gente fala que o filho da diarista vai virar médico, isso incomoda a sociedade, porque isso mexe na distribuição de renda", explica Cristiane Sobral. Segundo ela, "Carolina fala de uma mobilidade social que em 2026 ainda não aconteceu no Brasil".
 

O mito da meritocracia também foi parte do debate sobre "Quarto de Despejo". Cristiane Sobral lembra que Carolina de Jesus, com todas as barreiras sociais impostas, é uma das escritoras mais reconhecidas da atualidade. Entretanto, Sobral reforça que isso não se trata de meritocracia. "Por causa de sua realidade social, Carolina teve a vida de dois de seus filhos ceifada e morreu de uma doença que poderia ter sido evitada", lembra a escritora que teve como condição da conclusão do curso superior a situação de fome. Paralelamente, Cristiane Sobral ressalta: "Felicidade não é um acontecimento, é uma decisão".
 

Durante o debate sobre "Quarto de Despejo", Cristiane Sobral ainda trouxe aos presentes a diferença entre educação formal e sabedoria. A autora concorda que o direito à educação deve ser de todos, mas reflete que títulos acadêmicos não são pré-requisito para que alguém seja sábio. "Se a gente concordar com isso (que sabedoria depende de educação formal), vamos excluir inúmeras pessoas, inclusive das nossas famílias, que muito nos ensinaram para estarmos aqui hoje", afirmou.
 

A professora Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede pública de ensino do Distrito Federal Eveline de Souza Oliveira, que atua no magistério há 15 anos, participou do debate sobre "Quarto de Despejo" e se emocionou ao falar sobre a atividade. "A fala da palestrante traz à tona meu dia-a-dia. Eu encontro muitas 'Carolinas' no decorrer da semana, em sala de aula. São pessoas que vêm de uma realidade de vida muito difícil, uma realidade do campo, de trabalhadoras rurais, vaqueiros que têm a esperança de, por meio da educação, melhorar a sua qualidade de vida e a de toda a sua família", relatou.

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"Que essa tarde sirva para que vocês possam despertar alguma coisa dentro de vocês, que desperte a vida. Que a gente possa reinventar as maneiras de amor próprio", disse Cristiane Sobral, que fez questão de lembrar que o debate durante o Festival de Inverno do Sesc foi realizado no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
 

Clube de Leitura do Sesc
O debate deste sábado (25/7) foi proposto pelo Clube Sesc de Leitura. Lançado em 2024 com apenas 20 pessoas - e com Cristiane Sobral como convidada -, hoje o Clube tem mais de 300 participantes. 

"Estamos plantando uma semente. Todos os dias, recebo recado de alguém falando que o Clube mudou sua vida. Estar participando do Festival de Inverno do Sesc, um dos mais importantes do DF, é uma coroação para esses dois anos de existência", afirma a coordenadora do Clube Sesc de Leitura, Danielle Rangel.

Carolina de Jesus
Nascida em Sacramento (MG) em 1914, Carolina Maria de Jesus mudou-se para São Paulo em 1937, quando a cidade iniciava seu processo de modernização e assistia ao surgimento das primeiras favelas. Mãe solo de três filhos, Carolina foi alfabetizada aos 9 anos, e seque completou o que hoje é considerado ensino básico.
 

Em situação de vulnerabilidade social grave, Carolina de Jesus tentou um futuro melhor para si e para os filhos na favela do Canindé (SP). Vivia de catar papéis, ferros e outros materiais recicláveis nas ruas da cidade. Cada caderno que catava do lixo, utilizava para escrever sua trajetória. Foi assim que nasceu "Quarto de Despejo: Diário de uma favelada", um relato fiel de uma vida dura e injusta vivida não só por Carolina de Jesus, mas por milhares de pessoas, sobretudo as negras.
 

O primeiro leitor de Carolina de Jesus foi o jornalista Audálio Dantas, na década de 1950. Ele a conheceu na favela do Canindé, cenário de uma de suas matérias. Dantas iniciou um diálogo com a mulher que possuía inúmeros cadernos nos quais narrava o drama de seu dia-a-dia do Canindé. De imediato o jornalista se interessou pelo “fenômeno” Carolina de Jesus e se comprometeu em reunir e divulgar o material.
 

A publicação de "Quarto de Despejo" foi realizada em 1960. Atingiu vendagem recorde de trinta mil exemplares na primeira edição, chegando ao total de cem mil exemplares vendidos na segunda e terceira edições. Além disso, foi traduzido para 13 idiomas e distribuído em mais de 40 países. 


Festival de Inverno

Iniciado neste sábado (25/7), o Festival de Inverno do Sesc segue até domingo (26/7) com atrações para toda a família, totalmente de graça. Pela manhã, fora realizadas oficinas de cupcake e de montagem de foguete, além de atividades circenses, Parque Diversom e uma série de outras atividades.
 

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>> Programação completa: https://saibamais.sescdf.com.br/festival-de-inverno-2026

 

Para os adultos, prática de yoga e calistenia. Próximo a área de alimentação do festival, é realizado também o Festival de Brechós - Ao Desapego, que garante moda circular, peças únicas e preços camaradas para quem gosta de garimpar, e a Feira Panela Candanga, que reúne o melhor da gastronomia local.


As atrações musicias começaram às 13h deste sábado. São cinco palcos que se revezam com os mais diversos ritmos e estilos musicais. Entre as atrações musicais deste sábado estão Vanguart, Maglore, Samba da Passarinha, Mundo Livre S.A. e BaianaSystem. 

 

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Serviço: 
Festival de Inverno Sesc
Data: 25 e 26 de julho
Programação completa:
 https://saibamais.sescdf.com.br/festival-de-inverno-2026