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Cultura

Curso do Sesc Cultural discute o projeto modernista de Brasília

No terceiro encontro (14/11), Graça Ramos reflete sobre o projeto que inspirou a construção da capital no Brasil Central

Publicado em Qui, 05 nov 2026 20:09:00 +0000 Atualizado em Qui, 05 nov 2026 20:32:45 +0000

Única cidade moderna a receber o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco, Brasília reúne a utopia de ser uma capital que se ergueu planejada no Brasil Central a partir de ideais que representaram o progresso, a integração nacional e a transformação de um imaginário de um país marcadamente colonial numa nação de arquitetura livre e arrojada. É sobre essa “cidade-musa” que a doutora em História da Arte Graça Ramos construiu um extenso legado de estudos e pesquisas que será compartilhado no terceiro encontro do curso Modernismo na História da Arte Brasileira, concebido pelo Sesc Cultural, no dia 14.11, das 10h às 13h, no Teatro Silvio Barbato (Setor Comercial Sul). Gratuito, o ingresso será distribuído no foyer meia-hora antes.

O modernismo que se legitimou nas artes a partir da Semana de 1922, no centro hegemônico de São Paulo, redesenhou os palácios do Poder, construídos, em Brasília, com linhas e curvas marcantes, concreto armado aparente e grandes vãos livres sustentados por pilotis. A escala monumental erguia-se soberana numa cidade de traçado em cruz (ou avião) sobrepondo-se aos espaços residenciais (quadras com blocos), bucólicos (áreas verdes e parques da cidade-pomar) e gregários (espaços de convívios humanos).

“Nessa aula, caminharei por essa chegada do modelo modernista ao Poder, mas diferenciando a ideia de moderno, de modernismo e de modernistas. A ideia de levar a capital para o centro do país foi moderna; os sujeitos envolvidos em sua construção, modernistas. Essa problematização é central nesse encontro do Sesc Cultural”, aponta Graça Ramos.

Volpi e Maria Martins

Rito dos Ritmos, de Maria Martins IChiro Guerra/Divulgação
Rito dos Ritmos, de Maria Martins. Ichiro Guerra/Divulgação

Com pesquisas extensas sobre alguns dos artistas presentes na construção da capital, como Alfredo Volpi (1896 -1988) e Maria Martins (1894 - 1973), Graça Ramos vai passear pela trajetória artística de cada um, criando relações históricas e reflexões sobre apagamentos e posições políticas. Graça reflete sobre o que considera a primeira guerra cultural da cidade modernista o apagamento dos afrescos de Volpi das paredes da Igrejinha. O caso é mote do livro O apagamento de Volpi – Presença em Brasília, de sua autoria.

Outro ponto forte do encontro será sobre Maria Martins, que teve a primeira obra pública, “Rito dos Ritmos” (1958), posicionada no Palacio do Planalto. Graça Ramos é autora de Maria Martins: Escultora dos Trópicos, livro que traduz a trajetória artística e visceral da escultora que articulou a força da natureza e do imaginário brasileiro — profundamente enraizado em mitos amazônicos e tropicais — com as vanguardas internacionais, consolidando-se no eixo entre Paris e Nova York.

Mais do que uma representante do surrealismo, Maria Martins é vista por Graça Ramos como uma escultora visceral que traduziu os desejos em formas biomórficas e monumentais numa sensibilidade essencialmente feminina, marcada pelo rigor técnico, pelo hibridismo entre o humano, o animal e o vegetal, e por uma profunda busca de autonomia estética. “A escolha de Maria Martins para instalar a primeira escultura da cidade é paradoxal. Ela foge do cânone Modernista, mas avança em algo raro para a época que é a força do feminino na expressão do desejo sexual”, observa Graça.

Projeto Educativo

Participam do curso do Sesc Cultural 15 professores selecionados da rede Sesc de ensino (EduSesc) que integram um grupo de trabalho para aplicar os conceitos discutidos do curso de Modernismo em novas propostas metodológicas para sala de aula. O tema integra o currículo das escolas do Distrito Federal pelo fato de o projeto modernista de Brasília ser tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade. O Programa Educativo é um dos pilares do Sesc Cultural, cuja sede, na 511 Norte, entra em processo de reforma em 2027.

SERVIÇO

O quê: Curso presencial Modernismo na História da Arte Brasileira.

Local: Teatro Silvio Barbato – Setor Comercial Sul

Horário: Dia 14.11 – encontro com Graça Ramos das 10h às 13h.

Ingressos: gratuitos com distribuição meia hora antes no foyer do Teatro Silvio Barbato (sujeito à lotação).

PRÓXIMO ENCONTRO

28/11 - Outros Modernismos (Renata Felinto e Naine Terena)
Propõe uma revisão crítica sobre como a população negra e os povos indígenas foram retratados no imaginário modernista nacional. Debate os atritos entre visibilidade, apropriação cultural e exclusão histórica. O encerramento usa a arte contemporânea para expandir o cânone oficial e destacar as vozes, experiências e produções que foram marginalizadas no passado.

AS PROFESSORAS-PESQUISADORAS

GRAÇA RAMOS - Jornalista, doutora em História da Arte pela Universidade de Barcelona e mestre em Literatura pela UnB. Atua como pesquisadora, curadora e escritora com foco na produção artística e arquitetônica de Brasília e no patrimônio cultural.

RENATA FELINTO - Artista visual, pesquisadora, curadora e professora. É doutora em Artes Visuais pela Unesp com pós-doutorado na University of Pennsylvania, desenvolvendo trabalhos sobre arte, identidade, memória e diáspora africana.

NAINE TERENA - Pesquisadora, curadora, educadora e ativista do povo Terena. Atua na promoção da arte indígena contemporânea, articulando projetos sobre memória, território, direitos indígenas e perspectivas decoloniais.

Sobre o Sesc Cultural

O Sesc Cultural será um complexo de quase de 10 mil metros quadrados na Quadra 511 da Asa Norte, em Brasília, com obras previstas para iniciar em 2027 a partir da revitalização de uma estrutura abandonada por quase duas décadas. Projetado originalmente na década de 1970 por João Filgueiras Lima, o Lelé, o edifício histórico ganha nova vida por meio de um projeto de Marcelo Ferraz, arquiteto discípulo da tradição de Lina Bo Bardi, que preserva a construção original e adiciona uma expansão contemporânea em forma de cubo de concreto rosa rotacionado a 45 graus. O espaço multifuncional reunirá teatro, salas de oficinas, laboratório de arte e tecnologia, jardim de esculturas, espaços expositivos, áreas dedicadas à primeira infância, além de restaurante, cafeteria, loja e zonas de convivência.